O Rio São Francisco é gigantesco.
Atravessa cinco estados (Minas Gerais, Bahia, Pernanbuco,
Sergipe e Alagoas), passando pelo sertão do Brasil. E depois de
percorrer 2.700km, numa bacia de 640.000km², deságua no mar do
Nordeste.
Um rio que não só passa. Ele leva e
traz. Leva produtos e pessoas rio acima e rio abaixo onde ele é
navegável. Traz energia elétrica, o pescado e, sobretudo, água
para o sertão. Mas ele também trouxe um abrigo seguro para as
populações ribeirinhas e muitas vezes leva a sua indiferença rio
abaixo.
São centenas de cidades e povoados
que tiram do Rio o seu sustento e em troca despejam todo o seu
lixo. A maior tristeza do Velho Chico é receber as poluidas
águas do Rio das Velhas, o esgoto de Belo Horizonte. Mas o Rio é
forte e seu ecossistema absorve tudo e volta ter seu brilho mais
ao norte, já no sertão baiano.
Mas o seu tamanho e o seu
ecossistema não tiveram a mínima força para evitar a sua
desfiguração e as enormes mãos do homem fizeram as
hidroelétricas. Destaque para Três Marias em Minas e Sobradinho
na Bahia. O Rio foi forçado a inundar paisagens, cidades e um
pouco da história do Brasil. Canudos jaz no fundo do lago de
Sobradinho. "E o sertão virou mar...".
O garimpo que ocupou o interior do
Brasil também deixou, e ainda deixa, marcas profundas no Rio,
sobretudo próximo a sua nascente. Por um punhado de valiosos
diamantes, muitos anos de garimpo arrancaram a terra e a
vegetação de suas margens e jogaram tudo dentro do Rio. Ele
assoriou e perdeu profundidade e, consequentemente, a água. Quem
vem de carro pela parte baixa da serra em direção a São José do
Barreiro, consegue ver da estrada as marcas expostas da ganância
humana.
E apesar do garimpo ter sido
proibido desde a fundação do Parque entre 1972 e 1974, por
incrível que pareça ele está novamente presente bem próximo ao
parque, em um de seus primeiros afluentes. Com garantia do
governo e promessas de não destruir, a maior mineiradora de
diamantes do mundo está lá fazendo o seu trabalho, sem ser
incomodada. Mais uma vez o homem é ingrato com o Rio. As
promessas da mineiradora e a demagogia da politicada não tem
como esconder um ditado popular que diz que "não há como fazer
um omelete sem quebrar os ovos."
Outra grande preocupação, que foi o
empurrão final para a criação do Parque Nacional da Serra da
Canastra é a diminuição de sua vazão ao longo dos anos. Para se
ter uma idéia da gravidade da situação, estima-se que no
Império, a descarga era de 2.800m³/s, passando para 1.200m³/s em
1910, 800m³/s em 1933 e 500m³/s em 1971. Neste último ano, a
navegação fluvial foi interrompida.
O Rio é forte mas tem um limite. O
Rio até hoje só deu, trouxe e levou. Nada está sendo dado em
troca. Nem um pouco de respeito.